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Miss Universo: quando algo fútil se torna importante 13/09/2011

Posted by Carol Patrocinio in Blablabla.
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Sempre ri de concursos de beleza. Sempre achei um absurdo as pessoas levarem a sério um júri que olha para europeias, latinas, asiáticas e africanas com os mesmos olhos, as compara e escolhe a mais bonita. Como é possível comparar belezas tão diferentes? Existe uma maneira de ignorar os conceitos culturais que guiam nossa vida desde criança?

E então fui chamada para escrever sobre o Miss Universo. Aceitei, achei meio que um desafio: “como pode uma pessoa como eu, cada vez mais feminista, escrever sobre um concurso que objetifica mulheres?”. E mergulhei de cabeça no assunto.

Falei com especialistas, com a Miss Brasil 2010, com modelos, antropólogas e até com o diretor do Miss Brasil. Escolhi falar com mulheres, em sua maioria, para entender o que significa beleza e o peso disso em suas vidas. Comparei tudo com pesquisas que dialogam com mulheres do país inteiro.

Discuti interesses políticos e econômicos no concurso e tinha certeza que o título de Miss Universo ficaria para a brasileira, por sediar a competição e os próximos grandes eventos esportivos, ou para a chinesa, maior economia em expansão. E fui surpreendida.

Ao ver, entre as candidatas Miss Angola, meus olhos brilharam. É a diferença entre foto e vídeo: em movimento, Leila Lopes (sim, nossa falecida Leila Lopes representada num concurso de miss) tem uma luz inacreditável. Pronto, troquei Miss Kosovo por ela.

Eu já tinha falado pra todo mundo que torcia por mulheres que representam minorias, países em guerra, economias despencando. Gosto de pensar que essas mazelas nos ensinam a valorizar as pequenas coisas e nos tornam melhores.

Quando Miss Angola foi coroada Miss Universo fiquei em silêncio. Apenas perguntei: foi ela mesmo? Porque, por mais que eu quisesse, não conseguia acreditar 100% nessa possibilidade. Uma mulher negra. Linda, mas negra. Simpática, mas negra. Educada, mas negra. É sempre assim: ela é tudo aquilo, mas é negra, tadinha.

Enquanto o Brasil continua coroando as meninas do Sul, nada contra elas, que não representam visualmente a beleza brasileira, a Miss Universo é totalmente diferente. Leila Lopes tem cabelo crespo (não, não é cabelo ruim, é crespo, queridinh@), lábios grossos (na Angelina Jolie é sexy, numa negra é nojento) e nariz largo (isso, pode dizer que é nariz batata, pode dizer o que você quiser, mas combina com o rosto dela). E Leila Lopes chocou.

Os traços, chamados de grosseiros por muita gente, harmonizam com quem ela é. Tudo combina, se encaixa perfeitamente, no lugar certo. E quando ela fala… Ela é doce, educada, fala bem. Tem como não acha-la linda? Tem!

E é aí que está a importância de uma mulher negra representar o Miss Universo. É nesse exato momento que um concurso que aponta quem é mais bonita se torna útil: ele aponta quem é a mais bonita esquecendo o padrão imposto pela indústria da moda.

Num desfile você até pode ver uma ou outra negra, mas sempre muito alta, muito magra, com cara de infeliz. Cara de refugiada mesmo. A moda tem essa coisa de achar que está salvando o mundo. (gosto e consumo moda, mas cada coisa tem seu peso)

Miss Angola, agora Miss Universo, é leve. E cada menina negra que acordou hoje, se olhou no espelho e pensou como seria mais bonita se fosse branca, vai dar de cara com aquela mulher incrível, negra, linda, elegante, graciosa e entender que não é preciso ser branca para ser assim.

O Miss Universo (demorou muito, mas) quebrou um tabu que sempre me deixou muito assustada. O concurso ignorou o padrão branca-loira-de-olhos-claros que ajudou a construir. Saiu do ciclo. E deu uma aula, mundial, de como enxergar a beleza e ignorar seus próprios conceitos. Agora só falta as pessoas deixarem essa nova beleza tomar conta do imaginário e substituir o padrão europeu.

A beleza está em todo lugar, é só você entender como funciona aquela cultura.

[Três negras já haviam sido coroadas: Janelle “Penny” Commissiong (Trinidad & Tobago, 1977), Wendy Fitzwilliam (Trinidad & Tobago, 1998) e Mpule Kwelagobe (Botswana, 1999). Obrigada a leitora “stellium68” pela correção.]

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Comentários»

1. sean - 13/09/2011

O cara considerado pela maioria das pessoas do mundo como sendo o sujeito MAIS PODEROSO DO PLANETA é negro.

Desculpa, mas esse evento continua sendo fútil. Não estou dizendo se gosto ou não gosto. Mas é MUITO fútil.

O fato de uma negra ter ganhado só é um indício que os tempos mudaram.

Mas já mudaram faz tempo.

Carol Patrocinio - 13/09/2011

Os tempos mudaram onde, Sean? Porque todo dia milhares de meninas fazem chapinha no cabelo, milhares de mulheres sofrem violência, taxis não param pra homens negros a noite e as pessoas mais bonitas continuam tendo mais facilidade em tudo.

É fútil discutir a mulher mais bonita do mundo? Sim. Mas mostrar que ela nem sempre é uma barbie é muito útil.

Queria saber onde é esse mundo perfeito que você vive pra não ter mais que chamar o táxi sozinha enquanto meu marido fica distante com medo do carro não parar pra gente só porque ele é negro.

2. Zafa - 13/09/2011

É Carol, nisso estou contigo. Passo constantemente. E pior que nem um NEGRO legítimo eu sou, tô mais para amarelo desbotado do que outra coisa, mas sei bem como é.

3. stellium68 - 13/09/2011

Gostei do texto, mas só um adendo: em 1998 e 1999 o Miss Universo premiou duas negras: Wendy Fitzwilliam (Trinidad & Tobago) e Mpule Kwelagobe (Botswana). Portanto, a bela Leia Lopes é a 4a. Miss Universo negra em 60 anos.

Carol Patrocinio - 13/09/2011

Super obrigada, Maristela!

Não tinha atentado pra esse dado. Vou fazer um update no texto.

4. euvicente - 13/09/2011

O que me deixa meio puto da vida, é que há anos o Brasil não tem uma Miss mulata. Como pode o país do samba, mulata e futebol, só mandar pessoas do Sul do país para as disputas? E outra, como que podem falar sobre MISS UNIVERSO, se só terraqueas competem?

Carol Patrocinio - 13/09/2011

Esse lance de só meninas do Sul ganharem intriga muita gente, Vicente.
Sobre o nome ser Miss Universo é porque o Miss Mundo existe e é outra premiação, um pouco diferente.

:)

5. FredWalls - 13/09/2011

Sou suspeito para falar, pois gosto MUITO de mulheres, e independente de como elas sejam, negras, brancas, amarelas, gordinhas, magrinhas, com celulite ou estrias, sempre acho que cada uma tem sua beleza, sua particularidade. Não acompanho Miss Universo, mas gostei bastante do texto e das considerações feitas. Valeu!!!

6. mari tereza bazani plaza - 13/09/2011

Carol Patrocinio,a menina tímida de cabelos encaracolados claros, presos num rabo de cavalo,depois a formanda super fashion e diferente de todas as meninas da sua turma da 8@ série do Gradual. Sim me lembro muito bem do seu vestido e daquela tiara,ou coroa linda,simples mas que realçava seu cabelo curto e vermelho ma ra vi lho so.Naquele instante percebi que eu estava diante de uma menina diferente,corajosa,antenada,pronta p/conhecer e desbravar o mundo, a sociedade a vida! Que tinha sonhos ,no mínimo diferentes da maioria de suas amigas,nada convencional ou pré-estabelicido. É assim que me lembro de ti Carol,viajamos juntas p/Maresias lembra?Sempre pergunto de vc p/o Filipe,afinal sou sua fã e já faz tempo, senti muito orgulho de ti ao ler essa reportagem,super bem escrita e muito bem colocada.Parabéns pela reportagem e sua postura diante desse assunto.Bjs e até qualquer dia.Mari T.B.Plaza

Carol Patrocinio - 13/09/2011

Você sempre foi um exemplo pra quando eu fosse mãe, sabia? Sempre te admirei muito e um comentário desses é tão importante; você nem imagina.
Muito feliz em ter você por aqui. Espero que a gente se encontre em breve e possa bater um papo. :)

7. Larissa - 13/09/2011

Também acho que eleger uma negra num concurso de beleza não significa que o mesmo deixou de ser fútil. Acredito que há uma razão para essa exaltação da beleza negra que pode nem ser tão utópica o quanto a gente quer acreditar: tem a ver com consumo de moda, com esteriótipos diferentes para novos consumidores se identifiquem.
É ingênuo pensar que é por pura e simplesmente “valorização” da beleza negra – o que de fato deveria acontecer quando meninas pedem a suas mães para alisar os cabelos ou quando professoras ainda dizem nas salas que “fulaninha tem cabelo ruim”.

De qualquer sorte, muito contribui essa vitória da angolana porque provoca discussões como essas aqui. E claro, parabéns a Leila Lopes que é bonita e será exemplo de beleza para outras negras se reconhecerem.

8. Gisele - 13/09/2011

Talvez nunca presenciei uma situação de preconceito com o exemplo das palavras que a autora cita no texto, mas uma negra com lábios grossos não é nojento coisa nenhuma, é lindo demais! Achei o texto muito bom, só discordo de um trecho (a seguir);

“Enquanto o Brasil continua coroando as meninas do Sul, nada contra elas, que não representam visualmente a beleza brasileira”. Acho o Brasil amplo demais pra se ter um tipo de mulher que o defina. Acho que branca, negra, azul ou transparente, todas elas representam sim visualmente a beleza brasileiro. Achei muito forçado esse argumento. A questão não é que que as meninas do sul não representam, a questão é a predominância de um estereótipo, que foi contrariado ontem, já que Leila Lopes é lindíssima e tem um carisma que conquistou desde o inicio do desfile.

9. Mano Veio - 13/09/2011

… ai que preguiça…

Quando ganha a miss loira, é ditadura do padrão de beleza.
Quando ganha a miss negra, é pra mostrar pra menina negra que ela também é bela.

… ai, que preguiça!!

O mundo só vai ficar legal mesmo quando uma miss Angola, miss Finlândia, miss Gaúcha e miss Simpatia forem escolhidas misses, e não tiver nenhum bla-bla-blá de anti-preconceito preconceituoso como esse post.

Carol Patrocinio - 13/09/2011

Isso, o preconceito não existe no mundo lá fora, mas aqui onde se discute isso.

Machismo, misoginia, racismo e problemas sociais são coisas da cabeça de quem não tem um tanque cheio pra lavar, né?

Ah, o mundo encantado do homem branco hetero de classe média… tsc tsc

10. larissa - 13/09/2011

Pois é minha gente. Fácil falar ou “ter preguiça” quando NUNCA se presenciou ou foi vítima de alguma coisa.
Queria ver se ia bater preguiça sendo pintado de preto e indo dar uma passeada um dia no shopping.
;)

11. Brasil em 1° Lugar! - 14/09/2011

Pra alguem que enaltece a Fluoxetina… um concurso de Miss deve ser um problema terrível mesmo pra se discutir.

Carol Patrocinio - 14/09/2011

Putz, devia ter discutido a Musa do Brasileirão, né? Foi mal…

ZZZzzzzZzzz

12. Camila - 14/09/2011

Carol, adorei seu texto! E realmente fiquei muito feliz com a vitória da angolana!!! Mas fiquei com uma questão na minha cabeça… vc conversou com um monte de gente que entende o concurso desde economistas ao diretor. Qual conclusão você chegou sobre o concurso?! Mas, vamos pensar de outro modo e se a Australiana tivesse ganhado, será que a repercussão seria a mesma?! =))

Carol Patrocinio - 14/09/2011

Então, Cá, as pessoas acreditam muito em favoritismo por causa de patrocinadores e interesses políticos.
A Angolana ter ganho pode ter sido, sim, uma manobra para dar mais audiência e destaque ao concurso. Porém é a única explicação, pensando em politicagem, que eu consigo enxergar. Afinal, a economia de Angola não interessa muito aos grandes países, né?

:)


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