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Fernando Diass e o nanquim da realidade 29/09/2009

Posted by Carol Patrocinio in Cultura de rua, iG Street.
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Fernando Diass é um daqueles brasileiros que resolveu buscar saídas fora do país. Nanquim e técnicas de wash no papel são as maneiras encontradas para traduzir seus desenhos inspirados pela natureza humana, que já foram comparados aos da revista New Yorker, na Parsons School of Design.

Batemos um papo com o artista que vem ao Brasil ainda este ano, sem data confirmada, para saber mais sobre sua trajetória e inspirações.

IG Street: Você acredita que a mudança do Brasil para NY abriu portas para o seu trabalho?
Fernando Diass: Acho que indiretamente sim. Sair do país pode ser um experiência solitária, mas com consequências muito positivas. Quando vim para Nova Iorque amadureci bastante, me vi livre de julgamentos e passei a ser mais sincero em relação aos meus objetivos, e isso transpareceu nos conceitos que eu crio. É como se eu tivesse aberto um canal direto entre minhas ideias e o meu trabalho. A mudança e as consequências que ela traz foram mais importantes do que o destino no processo de encontrar mais oportunidades.

É claro que NY tem grandes vantagens para quem quer desenvolver um trabalho criativo. Eu, por exemplo, gosto de explorar a natureza humana, e sempre começo um trabalho a partir de algo que observei ou que vivenciei. Como toda grande cidade, NY tem um trânsito constante de pessoas, mas com uma particularidade: a dificuldade com que as pessoas têm em encontrar privacidade. Tudo acontece nas ruas porque muitas vezes os apartamentos são pequenos, os espaços são limitados e na maior parte do tempo, anda-se a pé. Então por mais que você não queira, é difícil não estar presente na vida dos outros e vice-versa. No meu caso, isso é precioso.

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IG Street: Como você se inspira para os trabalhos? Como você escolheu a técnica utilizada?
Fernando Diass: Eu não sei se é exatamente isso que me inspira, mas eu ando por aí, frequento diferentes tipos de lugar e procuro conhecer o maior número e variedade de pessoas possível. Tento conversar e enxergar novas perspectivas. Até mesmo quando isso é uma experiência desagradável tento ser observador e absorver algo. Vejo muitos filmes, em média um por dia. Me envolvo com música, aliás, outra vantagem de NY – a cena musical é incrível. Mas no final das contas eu pareço não ter muito controle sobre inspiração, é como se eu só vivesse minha vida do único jeito que sei viver e ficasse esperando pelas ideias, sem pensar muito nisso. Elas simplesmente vêm.

Acho que a minha técnica surgiu naturalmente, a partir da necessidade de aprender sozinho a qualquer custo. A maneira como eu faço meus trabalhos é fruto do que eu pude observar, filtrar e absorver ao longo do tempo. Como sempre vou continuar observando, minha técnica nunca vai parar de mudar. Hoje meu trabalho é do jeito que é porque me parece apropriado para o que eu quero dizer. Mas é como uma união entre forma e conteúdo, no momento em que o conteúdo muda, a forma também vai mudar, e para isso vou precisar adaptar a técnica.

IG Street: O que significa pra você e o seu trabalho expor junto com o Fashion Week de Nova Iorque?
Fernando Diass: O Fashion Week de NY é um grande evento cultural que atrai muita gente interessante, especialmente para áreas como o Village e o Soho, onde estou mostrando meus trabalhos. A cidade se transforma e dá espaço para um exercício explícito de criatividade, envolvendo diversas formas de arte. Por mais que eu não esteja diretamente ligado à moda, poder participar disso de alguma forma é inspirador. É como se por uma semana, eu tivesse uma audiência muito especial.

IG Street: Quais são suas referências nacionais e internacionais?
Fernando Diass: Minhas referências estão na música, na literatura, no cinema e na pintura. Sei que isso é bem abrangedor e vago, mas é muito difícil ser específico, porque eu provavelmente estaria excluindo algo.

Para citar alguns exemplos: acho que Michelangelo Antonioni fez filmes incríveis como Blow Up, L’Avventura e La Notte, entre outros. Os cineastas franceses da Nouvelle Vague também. Admiro Jean-Luc Godard e François Truffaut. Masculin Féminin, por exemplo, é um estudo interessantíssimo sobre relações humanas. Eu poderia citar muitos outros.

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Gosto muito da literatura russa de Dostoiewski. Acho Crime e Castigo tão intenso que eu poderia fazer uma série extensa de trabalhos baseada no livro. Mikhail Bulgakow escreveu um livro muito interessante chamado The Master and Margarita, recheado de sátiras e humor negro.

Gosto também de Edgard Allan Poe, tenho um profundo interesse pelo misterioso e pelo oculto. Gosto do trabalho de James Joyce, e devo ter lido praticamente toda obra de Oscar Wilde. Estou tentando ler um livro chamado Infinite Jest, de um autor americano chamado David Foster Wallace. Digo tentando porque realmente não é fácil. O livro é tão denso, complicado e extenso que me faz pensar sobre obsessão, sobre realmente querer expressar uma ideia.

Gosto do trabalho do Max Ernst, Alfred Kubin, Goya, Tchelitchew, Edward Gorey, Francis Bacon, David Shrigley… Acho que eu devo ter absorvido muito do que sei de alguns desses artistas.
Na verdade acho que a minha lista de referências vai muito além, não sei nem porque citei cineastas em primeiro lugar… Só posso dizer que todo dia adquiro uma nova referência, conheço algo novo e aprendo mais.

IG Street: Você pode contar um pouco como se deu sua ligação com as artes visuais?
Fernando Diass: Eu não sei dizer exatamente como começou, mas provavelmente foi bem cedo. Minha avó, minha mãe e minha tia são artistas plásticas, talvez isso tenha despertado o meu interesse pelas artes visuais quando eu ainda era pequeno. Me expressar através do desenho e da pintura foi como que instintivo, desenhar era algo que eu simplesmente sabia fazer, sem nem saber como ou porque.

Para mim a estética é e sempre foi intrigante de maneira geral.

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